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RELEASE 2003.
UMA COMÉDIA DIVERTIDA E INTELIGENTE, QUE PARTE DA HISTÓRIA BÍBLICA PARA SATIRIZAR OS VALORES ATUAIS DA SOCIEDADE.


O que seria a Sagrada Família, se não fosse a Sagrada Família?
Trata das aventuras – e desventuras
– dessa família, em sua mudança para o Egito. Uma família comum, como as nossas, com suas virtudes, seus conflitos e suas confusões.

Roberto Birindelli (ator e diretor) parte deste texto de Dario Fo (Nobel de Literatura em 1997), uma obra-prima da dialética, combinado com a dinâmica dos quadros de Cândido Portinari (da série Os Retirantes) para desenvolver uma elaborada linguagem visual e sonora. Interpreta 21 personagens, cada um com sua partitura básica de ações, seu gestual e sua vibração.

Sem recursos de cenografia, figurinos ou iluminação, os instrumentos utilizados para o espetáculo são o corpo e a voz, sustentados por uma pesquisa sobre a presença cênica do performer. A mediação se da pela presença de um narrador
- como os antigos juglares medievais - que será a ponte com o imaginário de cada espectador. A linguagem cômica retrata, com muita atualidade, as situações do nosso cotidiano, expondo de forma hilária as relações de poder.

Dario Fo é conhecido no Brasil pelas montagens de Marília Pêra ‘BRINCANDO EM CIMA DAQUILO’; de Antônio Fagundes, ‘MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA’;
de Denise Stocklos, ‘UM ORGASMO ADULTO ESCAPOU DO ZOOLÓGICO’; e Débora Finocchiaro, ‘POIS É, VIZINHA’.

Há 10 ANOS EM CARTAZ, este espetáculo recebeu o Prêmio Açorianos de melhor ator 1993, e participou de festivais, eventos e turnês em Porto Alegre, Buenos Aires, Montevidéu, Belo Horizonte, Ouro Preto, Teresina, São Caetano, São José do Rio Preto, Campinas, Canela, Caxias, Estocolmo, Lausanne, Manaus, Belém, Natal, Recife, João Pessoa, Brasília, entre outros.

Entrevista para um jornal de Natal – Novembro de 2002:

A montagem trata de um tema universal e já bastante explorado nas artes cênicas ou plásticas. No entanto, o texto de Dario Fo, “dessacraliza” a Sagrada Família. Como é a reação do público à ironia e mistura de elementos políticos na história bíblica?

Há três momentos no espetáculo (não devia contar, pois é surpresa): o primeiro é surpresa e estranhamento. Uma situação engraçada que nos leva para o contexto da história que será contada. O segundo momento é de questionamento, de como é ver as coisas desde ângulos que nunca tínhamos observado. É quando vemos que somos parecidos e tão engraçados quanto as personagens do espetáculo. O terceiro momento é o da emoção. Quando descobrimos que essas figuras da história, mais do que sagradas, são humanas e, portanto, maravilhosas, como todos nós. Sagrado, significa Sacro, ou seja “separado”, o que Dario Fo faz nesse texto é, justamente, não separar. Ele deixa essas figuras bem perto de nós.

Você está há dez anos na estrada fazendo Il Primo Miracolo. Baseando-se nas suas pesquisas de formação (relação ator-espectador), ao longo desse tempo, qual a reação do público mais previsível durante a apresentação. Alguma vez foi preciso improvisar? Alguma platéia já te surpreendeu?

Na pergunta anterior falei de como são mais ou menos as três reações em geral do público. Teve uma vez, numa apresentação em especial na época do Natal, em que uma escola para crianças excepcionais me convidou para fazer o espetáculo na festa com os pais e alunos. Crianças com Síndrome de Down, em cadeiras de roda ou com sérios problemas de motricidade acompanhavam o espetáculo, e aos poucos foram trazendo seus brinquedos, dançando junto, segurando minha roupa de trabalho; uns balançavam a cadeira de roda. Uma menina me deu de presente uma boneca de pano, que devolvi para a escola assim que soube que era seu único brinquedo. Essa situação toda foi muito forte, intensa. Outros momentos inesquecíveis foram na Cordilheira dos Andes, onde as pessoas levavam seus animais para dentro do galpão onde acontecia o espetáculo e acabou se transformando numa verdadeira manjedoura. Ou então numa outra situação numa ´quase´ briga de uma senhora - que não aceitava uma história que falasse de Jesus, sem ser a história oficial - e um senhor na poltrona ao lado que tentava explicar a ela que a peça não falava exatamente de Jesus, mas de nosso cotidiano. Também teve em Estocolmo, quando uma muçulmana retirou o véu que a impedia de se manifestar, correndo o risco de ser punida por esse gesto. Todos esses momentos ficaram registrados e são os que me fazem continuar, quem sabe por mais 10 anos.

Ao longo desse tempo, você fez alguma adaptação no texto para temas mais atuais?

Tenho tentado ser o mais fiel possível ao texto original, que traduzi diretamente do italiano. O que faço é uma adaptação para cada cidade que apresento. O espetáculo fala de relações sociais, de racismo e segregação, de costumes e isso difere de cidade para cidade.

Você é bacharel em Arquitetura, além do seu bacharelado em Artes Cênicas. Por que optou pela segunda formação, numa conjuntura em que se sabe que, muitas vezes, no país viver de arte é inviável ou pouco rentável?

Praticidade ou estilo? Estilo. Sempre tive uma espécie de vida dupla: de ator e arquiteto empresário. Claro que a arquitetura assim como a indústria ou o trabalho em instituições, fábricas e ministérios é mais rentável. Mas, há algum segredo que nos faz seguir adiante. Ítalo Calvino, em sua obra prima As Cidades Invisíveis, fala de uma metáfora de uma cidade metade fixa e metade móvel. Uma metade de fábricas, palácios e hospitais. E outra de circos, lonas, camelôs e saltimbancos. De tempos em tempos, fábricas e palácios são desmontados e levados embora, e é a metade efêmera que permanece. Em nossas cidades, realmente os palácios deram lugar a grandes centros administrativos; os teares, a grandes linhas de montagem, depois a sistemistas de montadoras, a e-commerce e pesquisadores de genoma, que um dia serão substituídos por... alguém que no domingo seguinte levará seu filho ao circo. Qual o segredo desse efêmero que perdura mais que todas as corporações? Talvez o fato de estar em constante mutação, talvez porque toca no essencial: a maravilha e o desejo humano. Penso que o futuro não é de quem domina as formas e os processos, mas de quem compreende os sutis detalhes desse desejo efêmero. O trabalho do ator é uma profissão que permite que trabalhemos sobre nós mesmos. Mundando-nos, modificando-nos, aprendendo, mergulhando nesses segredos.


Entrevista originalmente realizada pela rádio FM Cultura, de Porto Alegre - 2002.

Para falar deste espetáculo é preciso saber primeiro quem é o autor Dario Fo?

Dario é o ganhador do PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 1997, autor de mais de 70 comédias, sempre com temas polêmicos e atuais. Por aqui, ficou conhecido pelas montagens de MARÍLIA PERA – ‘BRINCANDO EM CIMA DAQUILO’, de ANTÔNIO FAGUNDES, que montou ‘MORTE ACIDENTAL DE UM ANARQUISTA’, a DENISE STOCKLOS, com ‘UM ORGASMO ADULTO ESCAPOU DO ZOOLÓGICO’, e a DÉBORA FINOCCHIARO, com ‘POIS É, VIZINHA’.

Sobre o que trata O PRIMEIRO MILAGRE DO MENINO JESUS?

É uma comédia BEM DIVERTIDA, QUE PARTE DA HISTÓRIA BÍBLICA PARA SATIRIZAR OS VALORES ATUAIS DA SOCIEDADE. Trata da realidade de uma hipotética sagrada família, em sua mudança para o Egito, mas de uma maneira dessacralizada, como uma família comum, com suas virtudes e seus problemas. Com isso o espectador se distancia do caráter religioso, e se identifica com essa situação cômica. Dario Fo trabalha essencialmente o teatro de situações cômicas.

Qual o desafio em fazer um monólogo e não torna-lo chato para o público?

Alguém inventou isso que monólogo é chato, talvez porque há menos jogo cênico, porque normalmente são espetáculos menores, com menos produção, menos pompa e colorido. É possível que hoje esses valores tenham até se invertido. Hoje somos bombardeados diariamente por dezenas de programas de auditório baseados em grandes cenários, luzes, coloridos, e um número enorme de bailarinos, técnicos e demais participantes. Assistimos shows da Madonna, Pavarotti ou outros, em estádios com 100 mil pessoas, e o que vemos realmente, devido à distância do palco, são as imagens nos telões e o som amplificado... mas então, no fim das contas, pra quê estamos ali? O teatro busca justamente esse estar ali. Esse contato vivo, próximo, frágil e ao mesmo tempo mágico. Nesta montagem, num espaço arena onde não há lugar diferenciado entre ator e espectadores, consegue-se potencializar esta relação. Devido à proximidade, cada espectador sai do teatro com a sensação de que o espetáculo era exclusivamente para ele.Isso torna a experiência muito mais rica.

Tu levaste o texto inteiro para o palco ou fizestes uma adaptação?

Parti do texto inteiro, centrado na realidade dessa família que parte de Belém para o Egito fugindo dos soldados romanos, e tracei um paralelo com milhares de famílias no mundo que têm que fugir de sua terra natal – seja pela fome, por guerras e outras maneiras de opressão -em busca de outros horizontes e sonhos. No Brasil, essa situação foi retratada pelo pintor Cândido Portinari, em sua série OS RETIRANTES NORDESTINOS, e é sobre esse material visual que trabalhei o espetáculo, combinando imagens fortes com um texto super engraçado. Isto permite aos espectadores transitar entre gargalhadas e reflexões profundas. Esta combinação de elementos é modificada em cada local de apresentação, conforme as características sociais do país, de suas peculiaridades sociais, raciais, econômicas, etc. Por exemplo: é completamente diferente falar de racismo na Bahia e em Estocolmo, e um espetáculo que faz uma aguda crítica social tem que se adaptar a essas grandes mudanças.

Por falar em mudanças, este espetáculo está em cartaz há tempos (10 anos), tendo percorrido outros estados e países... vamos falar de quando estreou e por onde andou.

Este espetáculo começou como trabalho de conclusão de curso na Faculdade de Artes Cênicas, da UFRGS, em Dezembro de 1992, fruto de uma pesquisa de linguagem cênica e do trabalho do ator. As primeiras temporadas aconteceram em locais alternativos, e começaram a aparecer convites para apresentar em festivais e eventos em outros estados. Viajei bastante dando oficinas e apresentando o trabalho em Canela, Blumenau, Florianópolis, São José do Rio Preto, Campinas, Ouro Preto, Santo André, Montevidéu, Buenos Aires, Salta Humahuaca, Jujuy, Estocolmo, Lausanne (Suíça francesa), Belo Horizonte, Teresina, entre outros.Tive a oportunidade de contatar povos de lugares esquecidos na cordilheira dos Andes, teatros riquíssimos do norte da Europa, com estrutura que nem poderíamos imaginar, assim como guetos de refugiados políticos, favelas e grandes centros urbanos. E agora estou viajando em 3 turnês ao mesmo tempo: com o projeto EmCena Brasil, do MINC, o Projeto Petrobrás, pelo Norte do país, e pelo SINPRO, Sindicato dos Professores do ensino privado, pelo interior do Rio Grande do Sul.



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